Ginecologia

Ozempic e canetas GLP-1 na saúde da mulher: fertilidade, anticoncepcional e gravidez

📅 Atualizado em agosto de 2026 ⏱ Leitura: 14 minutos 👩‍⚕️ Revisado por especialista em ginecologia

Ozempic, Wegovy, Mounjaro, Saxenda — as "canetas emagrecedoras" estão por toda parte, e muitas mulheres começam a usá-las sem saber de algo essencial: elas mexem com a fertilidade, podem interferir no anticoncepcional e são contraindicadas na gravidez. Este é o lado da história que quase ninguém conta — e que todo ginecologista precisa esclarecer.

Aqui você entende o que são os medicamentos GLP-1, o que eles fazem (e não fazem) pela saúde da mulher, e os cuidados indispensáveis com contracepção, fertilidade, gravidez e amamentação.

⚠️ Os 3 alertas mais importantes

  • Fertilidade: podem fazer voltar a ovulação e levar a gravidez não planejada ("bebês Ozempic")
  • Anticoncepcional: a tirzepatida (Mounjaro) pode reduzir a absorção da pílula e exige método adicional por 4 semanas; com a semaglutida, os estudos não mostraram perda relevante de eficácia
  • Gravidez: são contraindicadas — devem ser suspensas antes de engravidar

O que são Ozempic e as canetas GLP-1

Os medicamentos conhecidos como "canetas emagrecedoras" pertencem à classe dos análogos de GLP-1 (e similares). Eles imitam um hormônio intestinal (o GLP-1) que aumenta a insulina, retarda o esvaziamento do estômago e reduz o apetite — daí a perda de peso e o controle do açúcar no sangue. Os principais:

  • Semaglutida: Ozempic (diabetes) e Wegovy (obesidade); há também a versão em comprimido (Rybelsus)
  • Liraglutida: Victoza (diabetes) e Saxenda (obesidade)
  • Tirzepatida: Mounjaro — atua em dois alvos (GLP-1 e GIP); no Brasil, aprovada para diabetes tipo 2 e, desde junho de 2025, também para controle crônico do peso (IMC ≥30, ou ≥27 com comorbidade relacionada ao peso)

Para que servem (e o que não são)

São medicamentos com indicações médicas claras: diabetes tipo 2 e obesidade (ou sobrepeso com fatores de risco). Nesses contextos, trazem benefícios importantes de peso e metabolismo.

O que eles não são: um produto estético de uso livre. Exigem prescrição, indicação e acompanhamento médico e têm efeitos colaterais e contraindicações. No Brasil, desde junho de 2025 essas medicações só podem ser dispensadas com retenção da receita na farmácia — uma medida que existe justamente porque não são produtos de venda livre. Usar "por conta própria", apenas para emagrecer rápido, não é seguro — e, na mulher, ignora os efeitos sobre fertilidade e contracepção descritos abaixo.

Outro ponto que costuma ser mal explicado: a obesidade é uma doença crônica. O reganho de peso após a suspensão é comum mesmo em quem mantém alimentação e exercício — nos estudos, boa parte do peso perdido retorna ao longo do ano seguinte à parada. Isso não é falta de disciplina: é o comportamento esperado de uma doença crônica quando o tratamento é interrompido. Por isso essas medicações devem ser pensadas como parte de uma estratégia de longo prazo, e não como "uma caneta por alguns meses".

GLP-1, peso e fertilidade

Aqui está o efeito que pega muita gente de surpresa. O excesso de peso e a resistência à insulina atrapalham a ovulação; ao reduzir o peso e melhorar o metabolismo, as canetas GLP-1 podem fazer a ovulação voltar em algumas mulheres — sobretudo naquelas com obesidade e/ou SOP — e, com ela, a fertilidade. O resultado tem nome popular: os "bebês Ozempic" — gestações não planejadas em mulheres que não esperavam engravidar.

Duas ressalvas honestas sobre esse termo. Primeiro, "bebês Ozempic" é um apelido da mídia, não um efeito farmacológico formalmente estabelecido: o que se observa é a soma de perda de peso, melhora da ovulação em parte das pacientes, contracepção que falhou ou foi negligenciada e a interação específica da tirzepatida com a pílula. Segundo, embora a melhora dos ciclos seja bem documentada, os dados diretos sobre taxas de gravidez e nascido vivo ainda são limitados — o consenso internacional publicado em 2026 sobre esses medicamentos na vida reprodutiva é explícito quanto a essa lacuna. Nada disso enfraquece o recado prático abaixo: a possibilidade de engravidar é real e precisa ser levada a sério.

Dois recados opostos, mas igualmente importantes:

  • Se você NÃO quer engravidar: reforce a contracepção — a fertilidade pode voltar sem aviso.
  • Se você QUER engravidar: o GLP-1 não é um tratamento de fertilidade e precisa ser suspenso antes (veja a seção de gravidez). A perda de peso prévia ajuda, mas o planejamento é com o médico.

GLP-1 e SOP

Na síndrome dos ovários policísticos (SOP) — renomeada em 2026 para SOMP, síndrome ovariana metabólica poliendócrina —, em que a resistência à insulina e o peso têm papel central, as canetas GLP-1 podem ajudar no controle do peso e da resistência insulínica, o que tende a melhorar os ciclos e a ovulação. É uma área promissora — mas com ressalvas:

  • Off-label ou não? Depende do motivo da prescrição. Não existe GLP-1 aprovado para tratar a SOP, a anovulação ou a infertilidade — prescrever com essa finalidade é uso off-label. Mas a mulher com SOP que também preenche os critérios de tratamento farmacológico da obesidade (IMC ≥30, ou ≥27 com comorbidade) pode usar a medicação dentro da indicação aprovada para controle do peso, e nesse caso não se trata de uso fora da bula. A diretriz internacional de SOP segue exatamente essa lógica: medicamentos antiobesidade podem ser considerados na SOP pelos mesmos critérios da população geral.
  • Não substitui as bases do tratamento: mudança de estilo de vida e, conforme o perfil metabólico, a metformina, que tem indicações bem estabelecidas. Suplementos como o inositol não estão no mesmo patamar — a evidência é mais limitada e o benefício clínico, incerto.
  • Se houver desejo de engravidar, valem as mesmas regras de suspensão

Ozempic altera a menstruação?

Pode alterar — e, pelo que se sabe hoje, de forma predominantemente indireta. As mudanças menstruais observadas parecem decorrer sobretudo da perda de peso e da melhora metabólica (com redução da resistência à insulina e do excesso de androgênios), e não de uma ação direta no útero. Assim, o padrão menstrual pode mudar:

  • Regularização dos ciclos: em mulheres com sobrepeso/obesidade ou SOP, emagrecer costuma fazer a ovulação voltar e a menstruação ficar mais regular — é um bom sinal, mas que também significa retorno da fertilidade.
  • Alterações temporárias: mudanças rápidas de peso e de alimentação podem, em alguns casos, bagunçar o ciclo por um tempo.
  • Atenção ao atraso: atraso menstrual em quem usa GLP-1 e tem vida sexual não deve ser atribuído ao remédio sem antes descartar gravidez — lembre que a fertilidade pode ter voltado.

Em resumo: se a menstruação mudou durante o uso, vale conversar com o ginecologista — e, havendo atraso, fazer um teste de gravidez.

GLP-1 e anticoncepcional

Esse é um ponto crítico e pouco divulgado — e também o que mais gera confusão, porque não vale igualmente para todas as canetas. A diferença é importante:

  • Tirzepatida (Mounjaro) — atenção especial: é a que tem alerta farmacocinético específico. Ela reduz as concentrações do anticoncepcional oral, e a orientação é usar um método adicional (camisinha) ou trocar para um método não oral por 4 semanas após iniciar e por 4 semanas após cada aumento de dose.
  • Semaglutida (Ozempic/Wegovy) e liraglutida: os estudos não demonstraram redução clinicamente relevante da eficácia dos contraceptivos hormonais orais. A FEBRASGO orienta que a pílula pode ser mantida em usuárias de semaglutida.
  • Vômitos e diarreia intensos (comuns no início de qualquer uma delas) podem prejudicar a absorção da pílula — mas isso não é uma interação da classe: vale para qualquer causa de vômito ou diarreia perto do horário do comprimido, e a conduta é a mesma orientada na bula do anticoncepcional.

Ou seja: dizer que "GLP-1 corta o anticoncepcional" é impreciso e pode levar mulheres a desconfiar de um método que está funcionando. O alerta farmacocinético real é da tirzepatida.

De qualquer modo, quem usa essas medicações e não quer engravidar tem uma opção mais tranquila: os métodos que não dependem da absorção pelo estômago. A FEBRASGO destaca justamente o DIU (de cobre ou hormonal) e o implante como primeira escolha nesse cenário — eles eliminam de uma vez a dúvida sobre absorção, vômito e esquecimento. Quem já usa um método altamente eficaz corretamente não precisa "reforçar" nada: precisa apenas conferir com o ginecologista se ele é oral e se a caneta em uso é a tirzepatida.

Usa (ou pensa em usar) uma caneta GLP-1?

A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista e obstetra em São Paulo e orienta sobre contracepção segura, planejamento de gravidez e uso desses medicamentos no contexto da saúde da mulher.

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GLP-1 e gravidez

As canetas GLP-1 são contraindicadas na gravidez. Faltam dados de segurança em gestantes, e estudos com animais mostraram sinais de risco para o feto. Pontos práticos:

  • Antes de engravidar: é preciso suspender o medicamento. Para a semaglutida, a bula recomenda parar cerca de 2 meses antes de tentar, porque o remédio permanece semanas no organismo.
  • Se engravidar usando: suspenda e procure o médico — não é motivo para pânico. Vale dizer isso com todas as letras, porque é uma fonte enorme de angústia: os dados humanos disponíveis até 2026 não mostraram aumento claro de malformações após exposição no início da gestação. Os estudos ainda são insuficientes para chamar essas medicações de seguras na gravidez, mas uma exposição inadvertida precoce não é, por si só, indicação de interromper a gestação.
  • Durante a gestação: o ganho de peso adequado faz parte do processo e não deve ser "combatido" com essas medicações. Tecnicamente, o ponto não é apenas a bula: não há benefício em promover perda de peso durante a gravidez, e por isso essas medicações não devem ser usadas intencionalmente nesse período, sendo suspensas quando a gestação é reconhecida.

Quanto tempo antes de engravidar devo parar o Ozempic?

Como o medicamento permanece semanas no organismo, ele deve ser suspenso com antecedência ao planejar a gravidez:

  • Semaglutida (Ozempic/Wegovy): a bula recomenda parar pelo menos 2 meses (8 semanas) antes de começar a tentar engravidar — é a molécula que permanece mais tempo no organismo.
  • Tirzepatida (Mounjaro): pelo menos 1 mês antes da gravidez planejada, conforme a orientação da FEBRASGO e a informação de produto europeia.
  • Liraglutida: tem meia-vida bem mais curta; deve ser suspensa antes de iniciar as tentativas, sem necessidade de aplicar automaticamente o intervalo de dois meses da semaglutida.
  • Vale saber que esses prazos vêm da farmacocinética e das bulas: o consenso internacional de 2026 reconhece que ainda não há evidência clínica robusta definindo qual seria o intervalo ideal para cada molécula. Na dúvida, siga o prazo da bula — ele é o parâmetro mais conservador.
  • Mantenha a contracepção eficaz até a data combinada para começar a tentar, já que a fertilidade pode ter melhorado com a perda de peso.

O ideal é planejar com o médico a data de suspensão e o início das tentativas, incluindo os cuidados de pré-concepção (como o ácido fólico).

GLP-1 e amamentação

Esta é a área que mais mudou recentemente, e vale explicar com cuidado — porque "surgiram dados" não é a mesma coisa que "está liberado".

O que há de novo: pequenos estudos em humanos passaram a medir quanto do medicamento chega ao leite. Com a semaglutida injetável, não foi detectada nas amostras de leite analisadas. Com a tirzepatida, as concentrações foram indetectáveis ou muito baixas, e a informação de produto foi atualizada em 2026 com esses dados. Além disso, são moléculas grandes, provavelmente degradadas no trato digestivo do bebê e mal absorvidas por via oral — o que torna a exposição do lactente pouco provável.

O que isso ainda não significa: o consenso internacional de 2026 sobre essas medicações na vida reprodutiva conclui que a evidência segue insuficiente para respaldar o uso durante a lactação. Faltam dados sobre doses altas de tratamento da obesidade, sobre recém-nascidos e prematuros, sobre a composição do leite e sobre o crescimento da criança a longo prazo — sem contar o efeito de uma redução importante da ingestão calórica materna em quem está amamentando.

Na prática: o uso durante a amamentação deixou de ser um "não" automático por ausência total de dados e passou a ser uma decisão individualizada, que pesa a necessidade clínica da mãe, a idade do bebê (mais cautela com recém-nascido e prematuro), qual medicamento seria usado e os benefícios do aleitamento. O que continua não se justificando é o uso com finalidade estética no puerpério: a pressa de "voltar ao corpo de antes" não é indicação médica. No pós-parto, o caminho para recuperar o peso deve ser gradual e seguro, compatível com a amamentação e orientado pelo médico.

GLP-1 e menopausa

O ganho de peso é uma queixa muito comum na menopausa, com mudança na distribuição de gordura (mais no abdome) e maior risco cardiometabólico. As canetas GLP-1 vêm sendo cada vez mais consideradas nesse cenário para mulheres com obesidade ou diabetes — sempre com indicação individual, somadas a alimentação, exercício e, quando indicada, à terapia hormonal. Não são um atalho estético, mas uma ferramenta médica para casos selecionados.

Vai fazer cirurgia, endoscopia ou exame com sedação?

Este é um cuidado pouco divulgado e especialmente relevante em ginecologia, porque muitas mulheres fazem histeroscopia, endoscopia, procedimentos de reprodução assistida, cirurgias ginecológicas ou plásticas.

As canetas GLP-1 e a tirzepatida retardam o esvaziamento do estômago — é parte do mecanismo pelo qual reduzem o apetite. O problema é que, sob anestesia geral ou sedação profunda, um estômago com conteúdo residual aumenta o risco de regurgitação e aspiração pulmonar, mesmo com o jejum habitual cumprido. A Anvisa alerta expressamente para esse risco.

O que fazer: avise obrigatoriamente o anestesiologista e a equipe que você usa essa medicação, dizendo qual delas, a dose e quando foi a última aplicação. A decisão sobre ajustar o jejum, mudar a dieta nos dias anteriores ou suspender a medicação antes do procedimento é individualizada pela equipe — não existe uma regra fixa do tipo "pare uma semana antes", e você não deve suspender por conta própria.

Efeitos colaterais e segurança

  • Mais comuns: náusea, vômito, diarreia, constipação e desconforto abdominal — costumam melhorar com o tempo e com o ajuste gradual da dose
  • Menos comuns: problemas de vesícula (cálculos) e, raramente, pancreatite
  • Desidratação: vômitos e diarreia intensos podem levar à desidratação e à piora aguda da função dos rins — ingestão de líquidos e contato com o médico se os sintomas forem persistentes
  • Reganho de peso após a suspensão é comum, mesmo mantendo bons hábitos, porque a obesidade é uma doença crônica

⚠️ Sinais de alerta — procure atendimento

Dor abdominal intensa e persistente, principalmente se irradiar para as costas e vier acompanhada de vômitos, exige avaliação imediata: é o quadro que levanta suspeita de pancreatite aguda. Em 2026, a Anvisa emitiu alerta específico sobre esse risco, motivado pelo aumento de notificações associadas ao uso — inclusive de formas graves. A pancreatite é rara, mas o uso sem acompanhamento médico é justamente o que atrasa o diagnóstico.

Contraindicações e situações distintas — vale separar o que é contraindicação formal do que é uma decisão clínica:

  • Contraindicação de bula: história pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide ou de síndrome NEM-2 (para os produtos que trazem esse alerta), além de hipersensibilidade grave ao medicamento
  • Gravidez: não usar intencionalmente; suspender quando a gestação for reconhecida
  • Amamentação: evidência recente ainda limitada — decisão individualizada, conforme descrito acima

Por tudo isso, o uso deve ser sempre acompanhado por um médico (endocrinologista e/ou ginecologista), que avalia indicação, contraindicações e o contexto reprodutivo de cada mulher.

As canetas GLP-1 podem ser muito úteis na medicina — mas, na mulher, vêm com letras miúdas que ninguém pode ignorar: elas podem devolver a fertilidade sem aviso, atrapalhar o anticoncepcional e são proibidas na gravidez. Informação aqui não é detalhe: é segurança.

💬 Da prática clínica

Na prática, muitas mulheres começam essas canetas para emagrecer e acabam tendo melhora da ovulação e regularização da menstruação — em especial na SOP. É um efeito bem-vindo, mas que ninguém costuma avisar: significa que a fertilidade voltou. Por isso faço questão de abordar o lado reprodutivo: quem não quer engravidar precisa de um método confiável; quem quer engravidar precisa planejar a suspensão com antecedência. E aqui costumo desfazer uma confusão frequente no consultório: não é que "a caneta corta o anticoncepcional". O cuidado específico com a pílula é com a tirzepatida, no início do tratamento e a cada aumento de dose; com a semaglutida, a pílula pode ser mantida. Quando a paciente prefere simplesmente não ter que pensar nisso, o DIU ou o implante resolvem a questão de uma vez. O remédio pode ter seu lugar, mas essa conversa é parte indispensável do cuidado. — Dra. Gabriella Dourado

Perguntas Frequentes

O que é o Ozempic e para que serve?

Ozempic é o nome comercial da semaglutida, um medicamento da classe dos análogos de GLP-1. Foi desenvolvido para tratar o diabetes tipo 2 e age aumentando a liberação de insulina, retardando o esvaziamento do estômago e reduzindo o apetite. Por causar perda de peso, passou a ser muito usado (inclusive fora da bula) com finalidade de emagrecimento — para isso existe a versão Wegovy. Outras canetas da mesma família são a liraglutida e a tirzepatida (Mounjaro).

Ozempic emagrece? Posso usar só para emagrecer?

Sim, leva à perda de peso por reduzir o apetite. Mas não é um produto estético de uso livre: é um medicamento que exige prescrição, indicação médica (diabetes ou obesidade/sobrepeso com risco) e acompanhamento, pois tem efeitos colaterais e contraindicações. Usar por conta própria, sem avaliação, não é seguro. No Brasil, desde junho de 2025 a dispensação exige retenção da receita. E vale saber: o peso costuma voltar após a suspensão mesmo em quem mantém bons hábitos, porque a obesidade é uma doença crônica — o tratamento precisa ser pensado a longo prazo.

Ozempic ajuda a engravidar?

De forma indireta, pode. Em mulheres com obesidade ou SOP, a perda de peso e a melhora metabólica podem favorecer o retorno da ovulação e a regularização dos ciclos, e têm sido relatadas gestações não planejadas durante o uso — os chamados bebês Ozempic, apelido da mídia e não um efeito farmacológico formalmente estabelecido. Os dados diretos sobre taxas de gravidez ainda são limitados, e o medicamento não é um tratamento de fertilidade, além de ser contraindicado na gravidez. Quem deseja engravidar deve planejar a suspensão com o médico, e quem não deseja precisa de contracepção confiável.

Ozempic corta o efeito do anticoncepcional?

Depende de qual caneta — e essa distinção é importante. A tirzepatida (Mounjaro) é a que tem alerta específico: reduz a absorção do anticoncepcional oral, e recomenda-se usar um método adicional (camisinha) ou trocar por um método não oral por 4 semanas após iniciar e por 4 semanas após cada aumento de dose. Já com a semaglutida (Ozempic/Wegovy) e a liraglutida, os estudos não demonstraram redução clinicamente relevante da eficácia, e a FEBRASGO orienta que a pílula pode ser mantida. Vômitos ou diarreia intensos prejudicam a absorção de qualquer comprimido, seja qual for a causa. Para quem quer eliminar a dúvida de vez, o DIU e o implante não dependem da absorção pelo estômago.

Posso usar Ozempic na gravidez?

Não. As canetas GLP-1 não devem ser usadas na gravidez: não há benefício em promover perda de peso nesse período e faltam dados de segurança. Se você descobrir que está grávida usando, suspenda o medicamento e procure o médico o quanto antes — mas sem pânico: os dados humanos disponíveis até 2026 não mostraram aumento claro de malformações após exposição no início da gestação, e uma exposição inadvertida não é, por si só, motivo para interromper a gravidez. O ganho de peso adequado na gestação faz parte do processo e não deve ser combatido com esses remédios.

Quanto tempo antes de engravidar devo parar o Ozempic?

Para a semaglutida (Ozempic/Wegovy), a bula orienta suspender pelo menos 2 meses antes de tentar engravidar, porque o medicamento permanece no organismo por semanas. Para a tirzepatida (Mounjaro), a orientação é de pelo menos 1 mês. A liraglutida tem meia-vida bem mais curta e não exige o mesmo intervalo da semaglutida. Esses prazos vêm da farmacocinética e das bulas — ainda não há evidência clínica robusta definindo o intervalo ideal de cada molécula, então o prazo da bula é o parâmetro mais seguro. Planeje a suspensão e o início das tentativas com o seu médico, mantendo contracepção eficaz até lá.

Ozempic ajuda na SOP?

Pode ajudar no controle do peso e da resistência à insulina na síndrome dos ovários policísticos (SOP), o que tende a melhorar os ciclos e a ovulação. Sobre ser off-label, é preciso distinguir: não existe GLP-1 aprovado para tratar a SOP em si, então prescrever com essa finalidade é uso fora da bula. Mas a mulher com SOP que também preenche os critérios de tratamento da obesidade pode usá-lo dentro da indicação aprovada para controle do peso — e aí não é off-label. De todo modo, não substitui as bases do tratamento: estilo de vida e, conforme o perfil metabólico, a metformina. Suplementos como o inositol têm evidência mais limitada e benefício clínico incerto. A decisão deve ser individualizada com o ginecologista ou endocrinologista.

Pode usar Ozempic amamentando?

Essa resposta mudou nos últimos anos. Pequenos estudos em humanos mostraram que a semaglutida injetável não foi detectada no leite e que a tirzepatida aparece em concentrações indetectáveis ou muito baixas — além de serem moléculas provavelmente degradadas no trato digestivo do bebê. Ainda assim, o consenso internacional de 2026 conclui que a evidência segue insuficiente para respaldar o uso durante a lactação, porque faltam dados sobre doses altas, recém-nascidos, prematuros e efeitos a longo prazo na criança. Ou seja: deixou de ser um não automático e passou a ser uma decisão individualizada com o médico, considerando a necessidade clínica da mãe e a idade do bebê. O que não se justifica é o uso por finalidade estética no puerpério.

Ozempic altera a menstruação?

Pode, de forma predominantemente indireta. As mudanças parecem decorrer sobretudo da perda de peso e da melhora metabólica, e não de uma ação direta no útero: ao emagrecer, a mulher pode regularizar a menstruação (sobretudo na SOP) — sinal de que a ovulação e a fertilidade voltaram — ou, com mudanças rápidas de peso, bagunçar o ciclo por um tempo. Importante: atraso menstrual em quem tem vida sexual deve ser investigado com teste de gravidez antes de atribuir ao remédio.

Wegovy e Ozempic são a mesma coisa?

Têm o mesmo princípio ativo (semaglutida), mas são apresentações diferentes: o Ozempic foi aprovado para o diabetes tipo 2 e o Wegovy para o tratamento da obesidade, em doses geralmente maiores. Na prática, ambos levam à perda de peso. As mesmas precauções da semaglutida valem para os dois: cuidado com contracepção e suspensão antes de engravidar.

Posso engravidar usando Ozempic?

Engravidar é possível — o Ozempic não é um anticoncepcional e, ao contrário, pode até aumentar a chance de gravidez ao melhorar a ovulação. Mas não se deve engravidar usando: o medicamento é contraindicado na gravidez. Por isso, quem não quer engravidar precisa de contracepção eficaz, e quem quer deve suspender com antecedência (cerca de 2 meses para a semaglutida) e planejar com o médico.

Caneta GLP-1 e saúde da mulher: tire suas dúvidas

A Dra. Gabriella Dourado é ginecologista e obstetra em São Paulo (Paraíso e Higienópolis). Ela orienta sobre contracepção, fertilidade e planejamento de gravidez para mulheres que usam ou pensam em usar essas medicações.

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Conteúdo informativo. Este artigo não substitui a consulta médica nem a prescrição de medicamentos, que deve ser feita por um médico. Não inicie, ajuste ou suspenda qualquer medicação por conta própria.

Referências: FEBRASGO (posicionamento de 2025 sobre análogos de GLP-1 e contracepção), bulas e informações de produto de semaglutida, liraglutida e tirzepatida (Anvisa/FDA/EMA), Anvisa (aprovação da tirzepatida para controle crônico do peso, jun/2025; RDC 973/2025 e IN 360/2025 sobre retenção de receita; Alerta de Farmacovigilância 02/2026), consenso internacional sobre medicamentos incretínicos ao longo da vida reprodutiva (2026), LactMed (semaglutida e tirzepatida), International Evidence-Based Guideline for the Assessment and Management of PCOS (2023), Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG).